03/01/09

A mulher de Ló

A mulher de Ló
A misericórdia exercida no projeto errado
Texto Bíblico: Gênesis 19.12-26.

Sodoma e Gomorra impressionam os leitores do Antigo Testamento. Duas cidades irmãs conseguiram entrar no rol da fama devido ao peso de iniqüidade em todas as suas práticas. Eram cidades más. Tão más que não mereciam sobreviver.

Deus enviou seus anjos para comunicar a Abraão sobre a destruição das cidades. Abraão intercedeu por elas até ter certeza de que, se houvesse pelo menos dez justos, elas não seriam destruídas (Gn 18.32). Mas não adiantou. O fogo queimou as cidades!

Este dramático relato bíblico é muito desconfortável. Passa a idéia de que Deus não é misericordioso. Não combina de jeito algum com Ez 18.23, que diz: “Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? Diz o Senhor Deus; não desejo eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva?”. Nenhum profeta fora enviado a Sodoma e Gomorra para lhes anunciar possibilidade de arrependimento.

Além desta, encontramos outra dificuldade: o castigo sobre um dos poucos justos da cidade, a mulher de Ló, convertida numa coluna de sal, e não numa estátua, como algumas traduções o fazem.

Como podemos harmonizar a imagem de um Deus amoroso e perdoador, que de tanto amor se fez carne, habitou entre nós e se entregou à morte por nossa causa, com o Deus incendiário que petrificou a mulher por ter simplesmente olhado para trás? Sempre interpretamos a petrificação desta mulher como um castigo pela desobediência. É possível uma outra leitura deste texto?

1. O contexto do evento

Um pouco da geografia e das lendas do lugar têm o seu valor. A cidade de Sodoma ficava ao sul do mar morto. Gomorra era uma cidade vizinha, juntamente com Admá, Zoar e Zeboim.

A região contém um dos mais brutais acidentes geológicos do planeta, pois a Palestina está no maior “buraco” no solo da crosta terrestre, a 400 metros abaixo do nível do mar. O rio Jordão nasce numa montanha ao norte de Israel e vem descendo cheio de vida até desaguar no mar Morto (também chamado Arabá ou mar Salgado). Suas águas compreendem o maior depósito de sal e enxofre do planeta. Não há qualquer espécie de vida neste mar como: peixes, algas, corais, crustáceos, moluscos.

As lendas do lugar dizem que este “buraco” na região e o nível altíssimo de sal e enxofre são conseqüências da destruição das cidades. Os antigos diziam que não apenas a mulher de Ló foi transformada em estátua de sal, mas todos os habitantes das cidades também.

Mas a geologia detectou que milhares de anos atrás houve um tremor no solo submarino, que atingiu até a África, provocando uma rachadura na crosta terrester, que se refletiu neste desnível no solo, o que não explica o nível de sal e enxofre em suas águas.
Coluna de sal conhecida como mulher de Ló próxima ao Mar Morto.

2. Os personagens do evento

Já conhecemos Ló como o sobrinho de Abraão, filho de seu irmão Naor, que morrera na terra natal e se tornara como um filho adotivo para Abraão. As filhas virgens de Ló são mocinhas na nossa cultura, em idade adolescente, mas mulheres feitas na cultura da antiguidade.
A tradição rabínica enriquece a interpretação destes textos com alguns detalhes adicionais. Um deles é que Ló tinha quatro filhas, duas das quais já estavam casadas na época da destruição. Ló ofereceu aos homens da cidade suas filhas virgens. As casadas não foram mencionadas porque já tinham maridos. Outra informação é o nome da mulher de Ló: Idit (Irit ou Edit).

Ló saiu de Sodoma e se refugiou em Zoar, mas depois da chuva de fogo saiu da cidade e foi habitar as montanhas (Gn 19.17-22 e 30). Foi de Zoar que Idit contemplou a destruição das cidades e ali foi transformada numa coluna de sal. Quando Ló saiu de Zoar ele já estava viúvo e suas filhas não tinham noção de quantos seres humanos restariam para repovoar o mundo, e por isso tomaram a iniciativa do incesto (Gn 19.30-38).

3. Os conflitos do evento

Idit olhou para trás, desobedeceu à ordem expressa do anjo que disse: “escapa-te, salva a tua vida, não olhes para trás, nem te detenhas em toda esta planície. Escapa-te para os montes para que não pereças” (Gn 19.17). Por que Idit quis olhar para trás? Por que tamanho castigo lhe foi imposto, já que ela era uma das pessoas da cidade a quem os anjos puxaram pela mão para salvar da destruição? Será que foi castigo?

É comum ouvirmos pregadores afirmarem que a mulher de Ló se arrependeu ao deixar a cidade porque amava aquele lugar, porque teve pena de abandonar sua casa e suas coisas. Isso nos parece pouco real quando olhamos para o texto.

O texto hebraico deixa pistas que Idit realmente tinha duas filhas casadas, que ficaram em Sodoma. As traduções em português dizem que os genros que zombaram de Ló eram os noivos das filhas (Gn 19.14), mas na verdade a expressão hebraica hatan na maioria das vezes significa “marido de filhas”. Pode ser noivo também, mas a maioria das vezes a palavra é aplicada como genro marido e não genro noivo. O coração de mãe de Idit realmente lhe deu motivos suficientes para olhar para trás lamentando, não pela cidade, mas por suas filhas que ali ficaram. Quanta coisa poderia estar acontecendo no coração de Idit naquele momento?

4. As soluções do evento

Estas descobertas sobre o texto nos colocam diante de um quadro mais perturbador do que o que tínhamos antes do estudo, como se o texto nos revelasse um Deus que não leva em conta nem mesmo a natureza materna que Ele colocou na alma feminina.

Há algo mais profundo neste “olhar para trás” que muitas vezes nos fica embaçado porque a cena é tão traumática que ficamos petrificados como a coluna de sal, esquecendo-nos facilmente do propósito didático do texto. O que este texto pode ensinar a seus leitores?

Em primeiro lugar podemos aprender que não se deve ser espectador da destruição alheia quando nada pode ser feito para ajudar. Este é um conflito muito presente no nosso século. Se uma pessoa é atropelada, um monte de gente cerca a vítima, mas poucos tomam a iniciativa de socorrer. A mulher de Ló é um exemplo desta contemplação doentia pela desgraça alheia, algo a que o cristão não deve se adaptar. Michael Gold faz uma ressalva importante. Ele diz que quando não podemos ajudar, devemos desviar o olhar, porque as vítimas têm direito à privacidade de sofrerem sua dor sem serem humilhadas pela contemplação dos curiosos.

Uma outra lição que Idit nos ensina é a de não se deve colocar esperanças ou manter o coração num projeto do qual até Deus já desistiu. Ser transformada numa coluna de sal, não nos parece uma punição, muito menos arrependimento ou vontade de voltar para a cidade, mas apenas a conseqüência de manter o coração no projeto errado, por mais que nossa carne esteja envolvida nele. A petrificação de Irit é o reflexo de estar perto demais daquilo de que devemos manter distância. Talvez ela tenha se aproximado para ver se suas filhas não vinham correndo pelo caminho... quem sabe?

Neste mesmo texto há um recorte (Gn 19.27,28). Abraão, aquele que intercedera, contemplou a mesma destruição e bem de frente, mas de longe. Deus lhe prometera que, se encontrasse pelo menos dez justos a cidade seria salva. O olhar de Abraão para a destruição dizia: “nem dez justos havia!” O olhar de Irit dizia: “minha família está sendo destruída!”

Para pensar e agir

A compreensão do plano de Deus para nossa vida também atinge os nossos vínculos familiares?

Estamos gastando nosso tempo com projetos que não estão mais no coração de Deus?

Como discernir quando um projeto não merece mais nosso investimento de energia e dedicação?

Estamos aptos a confiar nas decisões de Deus a nosso respeito ou às vezes somos tentados a pensar que Ele não está sendo justo?

Leitura Diária

Segunda-feira – Gênesis 18.17-22

Terça-feira – Gênesis 18.23-33

Quarta-feira – Gênesis 19.1-8

Quinta-feira – Gênesis 19.9-14

Sexta-feira – Gênesis 19.15-23

Sábado – Lucas 17.20-37

Domingo – II Pedro 9.1-11

2 comentários:

José disse...

Li seu texto sobre Sodoma e Gomorra. Estou pesquisando o assunto para escrever uma monografia. Excelente texto, permitindo abrir diversos pontos de aprofundamento na pesquisa. Deus seja louvado por sua vida.
Parabéns e Sucesso no alcance do Alvo!!

Shalom
José Cavalcanti

Anônimo disse...

A PAZ DO SENHOR QUERO AGRADER-TE PELA A MATERIA A QUAL ESTOU FAZENDO UM TRABALHO A RESPEITO DAS CIDADES SODOMA,GOMORRA,ADMA,ZEBOLIM,E ZOAR TRABALHO ESTE PARA CURSO DE TEOLOGIA,SE O IRMÃO TIVER MAIS RESPEITO DAS TRES ULTIMAS SOU-LHE GRATO.EMAIL MIGUEL-GOULART@LIVE.COM JESUS CONTINUE TE ABENCOANDO GRANDIOSAMENTE ARUJA 26/04/2011